51 3303 0042 - 55 9949 4874
Manipueira pode ser utilizada para produzir etanol no Estado
Recomendar conteúdoImprimir conteúdo

A mandioca é uma das principais culturas de subsistência para milhares de pequenos produtores de Sergipe. Utilizada como matéria-prima para a produção de farinha, um produto bastante consumido no Nordeste, a mandioca fabrica um líquido tóxico gerado através da prensagem da massa de suas raízes: a chamada manipueira. A substância é riquíssima em açúcar, mas quando não há um destino útil, constitui-se em um produto nocivo ao meio ambiente. Também é um líquido rico em cianeto e cancerígeno.


Geralmente é armazenada em tanques para fermentação e, na sequência, descartada em água de rio ou no solo. Por ser altamente tóxico, polui a terra e mata a vegetação. Em Sergipe não é diferente. Milhares de litros de manipueira são despejados diariamente no meio ambiente sem nenhum tipo de tratamento. Apesar do conhecimento dos seus efeitos nocivos, nenhuma ação chegou a ser colocada em prática no Estado para dar uma destinação correta ao líquido e evitar, a cada dia, danos ao meio ambiente e à saúde humana.

Mas essa é uma realidade que pode mudar nos próximos meses. A convite do Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP), o engenheiro Eduardo Cauduro Mallmann esteve na semana passada em Sergipe visitando os três principais municípios produtores de mandioca: Umbaúba, Campo do Brito e Lagarto. Mallmann é sócio-proprietário da Usinas Sociais Inteligentes (USI), com sede em São Vicente do Sul, no Rio Grande do Sul.

"A USI Biorefinarias é uma empresa com visão solidária e conhecimento sustentável, produzindo módulos de biorefinarias integrados, ou seja, matérias-primas agrícolas estratégias e marginais, como a mandioca, batata doce e sorgo sacarino, com capacidade produtiva entre 400 e 2.000 litros/dia de bioetanol", explica o engenheiro. A usina possui certificação junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e da Fundação Estadual de Proteção Ambiental do Rio Grande do Sul.

"Nossa intenção é utilizar a manipueira, que se constitui em um veneno para milhares de agricultores, como matéria-prima necessária ao funcionamento de empreendimentos de produção do bioetanol social e do álcool farmacêutico. Com isso, vamos transformar um veneno em riqueza para o agricultor familiar sergipano", explica Eduardo Mallmann.

Na opinião do engenheiro, Sergipe reúne todas as condições para receber mini-usinas e usinas de porte maior para utilização da manipueira. "O Estado tem todas as condições necessárias de se obter sucesso no final desse processo, principalmente pela existência de matéria-prima abundante que se caracteriza como um passivo ambiental terrível e uma realidade permanente no arranjo agrícola social rural, até porque a cultura da produção de farinha de mandioca é muito forte. Portanto, a produção da manipueira vai se perpetuar por um longo tempo", avalia.

De acordo com Mallmann, o projeto só tende a trazer benefícios para os pequenos agricultores, uma vez que agregará um alto valor a um produto que hoje é descartado e considerado nocivo ao meio ambiente. "Temos aí não só o álcool combustível, como também o farmacêutico com grandes mercados e um excelente valor ao produto. Além disso, esse agricultor poderá ser beneficiado com a linha de compra da Conab para produtos da agricultura familiar", detalha.

A perspectiva do responsável pela USI Biorefinarias é que o valor agregado com o comércio do bioetanol social e do álcool farmacêutico seja igual ou até mesmo superior à venda que o produtor tem hoje com a farinha de mandioca por tonelada. "A agregação de renda vai ser notória, é visível. Além disso, o agricultor vai deixar de ser um agressor do meio ambiente para virar um ambientalista. Essa, na verdade, é uma grande riqueza", aponta Mallmann.

DRS

O pesquisador do ITP, Geraldo Viana, que acompanhou Eduardo Mallmann nos cinco dias em que esteve em Sergipe, disse que o projeto das usinas se encaixa no modelo de financiamento social do DRS (Desenvolvimento Regional Sustentável), um fundo do BNDES administrado pelo Banco do Brasil. Para demonstrar a ideia das usinas para a instituição financeira, Viana e Mallmann estiveram reunidos na superintendência em Sergipe com o agente de DRS, João César Silva Fernandes, e com o gerente de Mercado, Luiz Antônio Cunha Menezes.

"Discutimos sobre os melhores municípios de Sergipe para iniciar um processo dessa natureza, sempre levando em consideração a economicidade do processo, a justiça social por ele representada, além do caráter de proteção ambiental, sobretudo quando a matéria-prima utilizada é a manipueira", informou o pesquisador.

Ele avaliou como positiva a visita do responsável pela Usi Biorefinaria e reforçou as condições que o Estado tem de receber os investimentos. "Em Umbaúba, vislumbramos a possibilidade de abrigar vários empreendimentos. Já Campo do Brito tem uma grande capacidade de produção do bioetanol social e álcool farmacêutico, sobretudo por ter uma das mais expressivas produções de farinha do Nordeste. Além disso, temos ainda a região de Lagarto, que também possui um enorme potencial de receber vários empreendimentos", analisa Geraldo Viana.

De acordo com o pesquisador, o ITP e a USI irão finalizar nos próximos dias a elaboração do projeto de arranjo produtivo a ser apresentado no DRS do Banco do Brasil. A ideia é que já em fevereiro uma mini-usina esteja em funcionamento em Sergipe para, a partir de março, começarem a ser instaladas as usinas de maior porte.

 

Fonte: JORNAL DA CIDADE
Aracajú - SE